sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

É de manhã, vem o sol
Mas os pingos da chuva que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre que me traz esta canção
Quero que você me dê a mão

Vamos sair por aí sem pensar
No que foi que sonhei
Que chorei, que sofri
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão vamos sair
Pra ver o sol



http://www.youtube.com/watch?v=nOzI8FepOV0&NR=1

domingo, 25 de outubro de 2009

a anti-rosa atômica


Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa

[...]


Bomba Atômica - FANTÁSTICO, 1976 - PARTE 1

Bomba Atômica - FANTÁSTICO, 1976 - PARTE 2

Trecho Rosa de Hiroshima - Vinícius de Moraes e Gerson Conrad

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

so happy society!

Aprendi com meu pai a observar as pessoas. Sempre ficávamos olhando e comentando sobre os costumes e as excentricidades das pessoas das mesas do lado. Com os anos fui tomando gosto pelo esporte e comecei a praticar sozinha: às vezes sentava em alguma mesa de bar, shopping ou restaurante e ficava olhando como as pessoas comiam, bebiam, andavam, como as mudanças climáticas afetavam seu cotidiano. Compreendi o conceito do franco-observador criado pelo meu pai, mas o desenvolvi a meu modo.
Nas minhas andanças como observadora comecei a notar melhor os relacionamentos nos meios sociais, ou melhor, o que é preciso fazer para ser aceito. Por exemplo, quando um indivíduo deixa transparecer uma mania estranha, é colocado no patamar de excêntrico, mas quando dois indivíduos fazem o mesmo, são descolados. Parece estúpido e pouco original dizer isso afinal esse é o processo natural da moda. Mas moda aqui não é apenas uma forma de se vestir ou se comportar - moda no sentido de ver o mundo. O exemplo mais forte (na verdade, o que realmente me trouxe a esse texto) pode-se encontrar em um show. A moda agora é assistir o show pela tela do celular, da câmera fotográfica ou sei lá o que já inventaram. As pessoas estão mais preocupadas em guardar os momentos para o futuro do que vivê-los no instante presente. Há um boom de registros feitos para serem divulgados posteriormente (fiquei me perguntando se não queremos na verdade divulgar o quanto somos felizes, afinal se você mostra é porque quer que alguém veja) em sites de relacionamento, no youtube, em blogs, fotologs... Fico pensando que o propósito de ir a um show se perde sendo a idéia inicial transcender a barreira da imagem, e apreciar o momento sem um artefato interligando o espectador e a banda. Mas ao chegar a um show a primeira atitude dessa nova sociedade cheia de facilidades tecnológicas é sacar um artefato de bolso e criar uma nova barreira. Talvez assistir pela tela é uma garantia não só de poder rememorar, mas de "não perder nenhum momento". Quanto mais temos, mais somos incitados a ter... Vivemos em uma sociedade ansiosa por "não perder nenhum momento", e eu fico me perguntando se não perdemos todos os outros que necessitam o mínimo de contemplação.
Tudo isso não passava de uma elucubração para ser levantada com pessoas distintas até assistir Flash Happy Society e finalmente encontrar a devida identificação. Exageros a parte, o curta-metragem de Guto Parente diz, sem nada dizer, como se engendra o comportamento dessa sociedade com tanto poder de consumo, mas quase nenhum discernimento (e disposição) para procurar entender o mundo ao seu redor. Durante um show, o cineasta filma vários momentos onde várias pessoas tiram fotos - o efeito de montagem acontece nos momentos que são disparados os flashs e gradualmente há um crescimento até um ápice, onde a concepção do filmes e as saídas estéticas entram em uma sintonia perfeita, dispensando excessos técnicos que poderiam disvirtuar o conceito do filme. São apenas oito minutos pensados, filmados e editados por um único homem. O que me faz crer que cinema é feito de idéias, sentimento do mundo e observação, não de aparatos.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

"Há duas qualidades primordiais, sem as quais uma vida humana decente, para não dizer satisfatória, é impensável: liberdade e segurança. Precisamos de ambas, mas elas nos parecem muito difíceis e, o que é pior, impossível tê-las ao mesmo tempo. Segurança sem liberdade equivale à escravidão, enquanto liberdade sem segurança suficiente significa uma vida arriscada de contínua incerteza; para obter maior segurança, precisamos abrir mão de parte de nossas liberdades, ao passo que o preço de mais liberdade tende a ser uma crescente insegurança. Nenhuma dessas perspectivas é atraente e, assim, a busca por um melhor equilíbrio entre liberdade e segurança faz lembrar mais um pêndulo do que uma linha reta."


Depoimento de Zygmunt Bauman

sábado, 17 de outubro de 2009

No limite da carne que as sensações afloram. Porque a primeira lâmina de proteção é esta, visível, palpável... Depois da derme as lâminas vão se despedaçando aos poucos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

[...]

Oh my darling, oh my darling,
Oh my darling, Clementine!
Thou art lost and gone forever
Dreadful sorry, Clementine.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

paradoxos da vida

A clareza só veio depois que faltou luz.
"Há lugar para a carne no teu coração, Senhor? Há uns veios fundos e gemidos com o som do UMM? Ehud, sabes como é a palavra intelecto em russo? É UMM. O M prolongado UMMMMMMMM. a carne é que deveria ter o som de UMM, é assim no teu peito, Senhor, o sentir da carne? de lá do escuro venho vindo, teias à minha volta, estou presa a ti, do UMM à carne, um torcido elastiçoso no espaço de nós dois, não te separes nunca, não tentes, é sangue e gosma, é dubiez na aparência mas é cristal de rocha, vívido empedrado, é úmido também, UMM, o intelecto pulsante, a carne remançosa na aparência, se me olhas não vês febricidade mas se me tocas te seguro numas duras babas, tu e eu, um único novelo espiralado, não te separes nunca, não tentes, subo até teus tornozelos, vou te lambendo lassa, aspiro pêlos, cheiros, encontro coxa e sexo, queria te engolir, Ehud, descias em UMM pela minha laringe, UMM pelas minhas tripas, nódulos, lisuras, trituro teus conceitos, teu roxo intelecto, teu olhar para os outros, te engulo Ehud, altanaria, porte, teu compassado, teu não saber sobre mim, teu muito-nada compreender, delizas de UMM pelos tubos das vísceras, teu misturar-se a mim, adentrado desfazido, não és mais Ehud, és Hillé e agora não te temo"


Trecho "A Obscena Senhora D" - Hilda Hilst

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Certos amores não se esgotam. Perduram com o tempo e às vezes continuam a inflar sem que percebamos. Mesmo diante das brigas e dos atropelos, eles vão seguindo mudos, tecendo seus fios (e quando reaparecem soam tão inabalados). Os amores mais frágeis se desgastam - não cabe a eles o verdadeiro sentido do amor. Uma faísca e...!

Certos amores persistem, mas só borbulham de quando em quando dentro da gente.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Rabiscos





"[...]

São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do
[sabonete araxá?
São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?
Meu Deus, serão as três Marias? [...]"

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

lápis de cor sobre A4

"[...]
A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida,
[dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse... Oh, então nunca mais
[a minha vida outrora teria sido um festim!
Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei?
[queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca.
[Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:

O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
"


Manuel Bandeira - Balada das três mulheres do sabonete Araxá

domingo, 9 de agosto de 2009

A arte precisa ser sentida pelos insensíveis. De que importam os gigantes de coração se esses são levados por qualquer fagulha de sentimento? Só aqueles que não sentem com facilidade são capazes de discernir a arte do mundano.




(só os mundanos podem ser verdadeiros artistas)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Coração Amarelo

De tanto andar uma região
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoravam os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.

Pablo Neruda




Acho que já atrofiei.

domingo, 28 de junho de 2009

[...]

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde,
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chama eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.



Do Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro

segunda-feira, 1 de junho de 2009

II

Não sentia amor. Paixão tampouco. Todos esses sentimentos primários foram reprimidos em prol de algo muito mais forte. Não se tratava de apenas um sentimento - ela não é nem nunca foi reducionista a esse ponto. Se tratava de um acumulo que vinha se intensificando nos últimos tempos (não sabia transpor para o calendário o tempo exato que começou a sentir).
Dentro da confusão conseguia reconhecer apenas contornos de sensações. Respirar havia se tornado uma atividade difícil, pois a cada inspiração sentia a cabeça pesar e quase pender para frente. Porém isso não lhe causava dor, seu corpo estava débil o suficiente para não sentir dor. Às vezes parecia prazeroso. Mas não se apegou a essa impressão, não lhe parecia certo. Quando era tomada de assalto por um espasmo ou outro, voltava a perceber seu corpo por inteiro e sentia as unhas, a língua, a batata da perna, tudo de uma vez. Dois segundos depois voltava ao estado inicial, agora se contendo ainda mais... Precisava se conter. E se continha desde... Pra quê calendários agora? Se continha, e isso bastava.

Então, na vontade de se entender, pensou em aleatoriedades. Se se inserisse em um contexto, talvez encontrasse algumas respostas. Seguindo adiante nesse raciocínio, uma palavra saltou em sua mente: "paixão". (Respirou pesadamente mais uma ou duas vezes antes de pensar novamente.) Paixão. (Mais um espasmo.) Paixão. O que diabos...? Paixão. Não podia ser: paixão era aquela coisa que se tem pelo outro, que se lê nos livros ou se vê nas novelas. Paixão não deveria ser inserida em contexto algum, e se fosse, a classificação deveria ser outra. Paixão é tão abstrato. Pensou em "abstrato" (nunca havia usado "abstrato" em uma frase). Paixão... Ainda não fazia sentido... Mas agora queria que fizesse. Se sentiu ainda mais sufocada com tantos pensamentos... Queria sair daquele cômodo. E gritar, gritar até o ar voltar a circular pelo seu corpo facilmente, gritar até alguém ouvir, qualquer pessoa, não importava quem, gritar até aparecer um alvo qualquer que ela pudesse descontar...

Outro espasmo.

Sentiu novamente a demência tomar seu corpo aos poucos...
Resolveu agir da melhor forma que pôde: respirou devagar, fechou os olhos e forçadamente, dormiu.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

algumas poucas, mas muitíssimo boas!

Finda a maratona das filmagens do "Poeta Urbano", de Antônio Carrilho!

http://www.youtube.com/watch?v=3c7ZGN2Rht0
O vídeo foi gravado em um dos intervalos das filmagens, dentro do bar de Darcy. Música "Por Quê?", da banda Ave Sangria - a trilha sonora oficial!


Início da maratona do Cine PE! Cobertura diária na Revista Zé Pereira - meia pernambucana, meia carioca.
www.revistazepereira.com.br

domingo, 26 de abril de 2009

Como se fosse um pedaço que ficara guardado por anos e anos, e eu sequer tinha consciência da sua existência. Mas só foi preciso um pequeno estalo... e o reconhecimento se encarregou de todas as outras partes.

I cannot be without you, matter of fact
I'm on your back.

http://www.youtube.com/watch?v=R2oTmdZ-Q7g

domingo, 12 de abril de 2009

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.


Teresa - Manuel Bandeira

quarta-feira, 1 de abril de 2009

I

Era uma mulher. Dentro de tantas culturas esse fato poderia vir repleto de significados. Aqui, não. Era uma mulher, só. Sem qualidades, defeitos, vontades. Feições incrivelmente inexpressivas: não era possível atravessar seus olhos e descobrir mundos. Antes mesmo de chegar nos olhos, éramos parados pelos pés-de-galinha, olheiras, pelas sobrancelhas ralas. Nunca ninguém transpôs essas fronteiras.

Era uma mulher. Do tipo que mesmo fisicamente presente, nunca é vista.
Transparece devagar, mostrando primeiro uma finíssima camada que vai tomando forma, tomando forma...
Transparece e continua amorfa.

Era uma mulher idêntica a todas as outras e completamente diferente: sentia-se paradoxal.
Pena que não sabia o significado de paradoxal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Era uma ignorante.

E do pior tipo: daquelas que nunca duvidam de si mesma.

domingo, 4 de janeiro de 2009

...

Me dê uma penca de opções para colocar debaixo do braço nesse verão chuvoso.
(a maior frustração de um indeciso é a opção)

Carrego Clarice?
Carrego Mário?
Carrego Glauber (que tipo de verão queres?)?
Carrego Bandeira!?
Carrego, quem sabe, uma enciclopédia (para ser menos ipsilone)!

E eu, que queria me safar de tudo, carrego todo meu excesso pro lado de lá.


[de uma falta do que fazer/escrever extrema]

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

eu sou teu clareado,
a tua primeira tentativa de cores.

(seguida da primeira desilusão)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

2009

"Mas chegamos ao ano dois.
Graças às ampulhetas, chegamos ao ano dos amores e das parcerias.
Vamos viver grandes emoções em excelentes companhias!
Mas nada de se fechar em relacionamentos, hein?

O Tao do amor, o tal do amor,
precisa de oxigênio-liberdade para gerar felicidade!
(Vi)Vamos!!!"




Evinha Duarte prevendo as boas energias de 2009!
http://dobrinhas.blogspot.com/2008/12/preparemos-nossas-sandlias-para-mais.html