sexta-feira, 13 de abril de 2012

12/04/11

Hoje foi um dia sem final. Ninguém dormiu e acordou no outro dia:
dormimos, acordamos e ainda era o mesmo dia.

domingo, 8 de abril de 2012

O meu olhar é nítido como um girassol

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Alberto Caeiro

domingo, 29 de janeiro de 2012

LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

(Cecília Meireles)

domingo, 16 de outubro de 2011

O vermelho sempre incomodou Wilma...


Curta-metragem produzido para o projeto Olhares sobre Lilith: http://olharesobrelilith.wordpress.com/

Nos Festivais:
- Festival de Cascavel (PR)
- XVI Festival Nacional 5 Minutos (BA) - 01 a 05/11
- Festival Aruanda (PB) - 09 a 14/12

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Hoje, não.

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Adiamento - Fernando Pessoa

quinta-feira, 9 de junho de 2011

mais um sobre a morte (ou, a não-morte)

Morrer, pra mim, não é uma especialidade - na realidade não é de nenhum ser humano, ao menos não no sentido literal -, muito menos deixar que morra. Minha habilidade sempre esteve em permanecer, não importando as condições, os incômodos ou desgaste. Fui construindo, desse modo, um balaio de permanências capengas: dei privilégios aos restos em detrimento da consistência.
Hoje, repleta de restos, fico procurando quais as peças que faltam do quebra-cabeça... Se ao menos esses pedaços formassem algo eu poderia mantê-los comigo, por segurança. Espalhei os pedaços, montei. Desmontei. Montei novamente. Nada. Nada além de uma formação amorfa e desencaixada. A permanência era minha; os restos, dos outros.

- Minha querida, permanências não são renascimentos, são apenas ossadas.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

aleatório e pontual

Existe justiça na morte? Uma razão tangível para alguém deixar de existir? Ou será que a morte, essa persona non grata, age de modo aleatório, escolhendo seu novo inquilino ao acaso? Será que ela traça planos e monta armadilhas em lugares específicos para o primeiro desavisado que passar...? Isso faria valer o dito popular "no lugar errado, na hora errada". Então quantas armadilhas ela deve ter deixado pelo caminho hoje? Cairei em alguma durante o dia?
Pensar na morte é boiar sozinho em um oceano de incertezas, sem saber qual a melhor opção: definir um sentido e nadar cegamente em direção a ele ou apenas se deixar levar pela correnteza. Talvez, com um pouco de sorte, ela tenha piedade e coloque novamente os seus pés na terra. Talvez não. Como fazer brotar piedade na morte? Não sei. Da indesejada das gentes só sei que em um dia banal ela entra na sua casa sem a menor cerimônia (talvez bem na hora do almoço), se aproxima e adormece seu corpo com um beijo suave, deixando a sua cara ir de encontro com o prato de feijão recém servido.

A morte simplesmente é. Um é sem humanidade alguma.
Humanos, meus caros, somos nós - humanos e ingênuos por esperar humanidade do inumano.