terça-feira, 22 de janeiro de 2013

I can change!

A mudança faz parte do ser humano. Nosso corpo muda, nossas vontades mudam, os ambientes que frequentamos, os amores e os endereços mudam. A vida não é uma linha inerte que segue inabalável, na realidade ela está mais para uma palpitação onde as tensões e os relaxamentos ditam o ritmo. 

Nos últimos anos fiz desse blog uma parte de mim. Construí o hábito da escrita - uma escrita emocional, sem muito pensamento - e a coragem de me expor, mas, no momento, envolta pela aura das mudanças, resolvi abandoná-lo. Não um abandono completo, pois sou autocentrada e egoísta demais para isso. Ele permanecerá aqui para que eu possa me visitar de vez em quando e lembrar quem fui, quem ainda quero ser e quem deixei pra trás nesses anos que morreram. 

Não que um blog mude a vida de alguém, obviamente, mas entender a construção de um recomeço, por mais fútil que ele seja, é dar um passo para construções e recomeços maiores.   

Recomecemos! 
www.redutodaspalavras.blogspot.com

domingo, 20 de janeiro de 2013

Somos nossos próprios demônios

DEMÔNIOS. O sujeito apaixonado tem às vezes a impressão de estar possuído por um demônio de linguagem que faz com que ele se fira e se expulse - como diz Goethe - do paraíso que, em outros momentos, a relação amorosa constitui para ele. 

1. Uma força precisa arrasta minha linguagem para o mal que posso fazer a mim mesmo: o regime motor do meu discurso é a roda livre: minha linguagem aumenta de volume, sem nenhum pensamento tático da realidade. Procuro me fazer mal, expulso a mim mesmo do meu paraíso, me empenhando em procurar em mim imagens (de ciúme, de abandono, de humilhação) que me podem ferir; e, aberta a ferida, eu a sustento, e a alimento com outras imagens, até que uma outra ferida venha desviar a atenção. 

2. O demônio é plural ("Meu nome é Legião", Lucas 7-30). Quando o demônio é repelido, quando finalmente lhe impus silêncio (por acaso ou lutando), um outro levanta a cabeça ao lado e começa a falar. A vida demoníaca de um enamorado parece com a superfície de uma solfatara; bolhas enormes (quentes e pastosas) estouram uma atrás da outra; quando uma se desfaz e se acalma, retorna à massa, uma outra, mais longe, se forma, cresce. As bolhas "Desespero", "Ciúme", "Exclusão", "Desejo", "Conduta Indecisa", "Medo de perder o rosto"(o mais malvado dos demônios) fazem "ploc" uma atrás da outra, numa ordem indeterminada: a própria desordem da natureza. 

3. Como repelir um demônio (velho problema)? Os demônios, sobretudo se são de linguagem (e poderiam ser de outra coisa?), são combatidos pela linguagem. Posso portanto ter esperança de exorcizar a palavra demoníaca que me é soprada (por mim mesmo) substituindo-a (se tenho o talento da linguagem) por uma outra palavra, mais calma (caminho para a eufemia). Assim: eu acreditava ter finalmente saído da crise, quando numa loqüela - favorecida por uma longa viagem de carro - toma conta de mim, agito constantemente no pensamento o desejo, a saudade, a agressão do outro; e acrescento a essa ferida o desânimo de ter que constatar que recaio; mas o vocabulário é uma verdadeira farmacopéia (veneno de um lado, remédio do outro): não, não é uma recaída, é só um último sobressalto do demônio interior. 

trecho do livro Fragmentos de um discurso amoroso - Roland Barthes

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"[...] Ela dizia: "Quando uma pessoa vive de verdade, todos os outros também vivem."E todos os animais, nós incluídos, por meros momentos, voltávamos a ser selvagens.
Ela queria dizer que, quando uma criatura resolve se dedicar a viver de modo mais pleno possível, muitas outras que estiverem por perto se "deixarão contagiar". Apesar das barreiras, do confinamento, até mesmo de lesões, se alguém se determinar a superar tudo para viver plenamente, a partir daí os outros também o farão, e esses outros incluem filhos, companheiros, amigos, colegas de trabalho, desconhecidos, animais e flores. "Quando uma pessoa vive de verdade, todos os outros também vivem." Esse é o principal imperativo da mulher sábia. Viver para que os outros também se inspirem. Viver do nosso próprio jeito vibrante para que outros aprendam conosco."  

A Ciranda das Mulheres Sábias - Clarissa Pinkola Estés

sábado, 5 de janeiro de 2013

365 dias de vida

Mas, não adianta ter planos, projetos aprovados, mandatos assumidos, tudo arrumadinho sobre a mesa. Pois, aí vem Saturno, aquele planeta tão temido quanto um pai severo, mas com o qual podemos começar a dialogar. Um pai pode cometer erros de avaliação ou nos conhecer menos do que pensa. Saturno nunca erra, porque sua voz sai de dentro de nós. Impõe foco, coragem e determinação; aponta nossas fraquezas, preguiças e, principalmente, revela nossa sombra. 

(Limites, que não os tem?)
As coisas não vão andar por si sós. Nossas decisões serão importantes a cada passo, a cada movimento das escamas douradas da Serpente, que começa a mandar no mundo em fevereiro. Para potencializar o poder desta cobra, é preciso prever cada centímetro antes de se movimentar. Caso contrário, o risco de ir sem chegar a lugar nenhum, girando em forma de rotina qual Ouroboros, é grande. Para quem estiver preparado, a ofídia vai ficar virada que nem uma Kundalini. 
(Ofídia boa!!! Uhuuu!!!)
E o sentimento, não conta? Sempre conta! E com a carta deste ano, então! Haja sentimento! Com a regência dOs Enamorados, precisamos de muita atenção para que nossas escolhas não sejam feitas só com o coração. O poder de decidir, o livre-arbítrio, está aí para que possamos definir nossas vidas, redesenhá-las, reaprumá-las. Decisões tomadas, a carta VI sugere fortalecimento de laços, casamentos, sociedades sólidas. 
(Vou ali varrer meu pé e já volto!)
E nem sonhe em fazer tudo isso só. O número Seis (2+0+1+3) vem para mostrar a importância do trabalho em grupo, das parcerias. É hora de juntar o povo para fazer junto e em prol do coletivo, seja em família ou com amigos. Um número que traz em si as vibrações do amor, da beleza e da saúde, mas também o idealismo, por isso devemos ter cuidado com a frustração. Nem todo mundo está na mesma vibe. ;)

Planejamento, escolhas, disciplina e reflexão! 


Como de praxe, as previsões para o ano novo por Evinha Duarte. Que venha 2013! 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Da Fuga


Perdi-me muitas vezes pelo mar,
o ouvido cheio de flores recém cortadas,
a língua cheia de amor e de agonia.
Muitas vezes perdi-me pelo mar, 
como me perco no coração de alguns meninos.
Não há noite em que, ao dar um beijo, 
não sinta o sorriso das pessoas sem rosto,
nem há ninguém que, ao tocar um recém-nascido,
se esqueça das imóveis caveiras de cavalo.
Porque as rosas buscam na frente uma dura paisagem de osso
e as mãos do homem não têm mais sentido 
senão imitar as raízes sob a terra.
Como me perco no coração de alguns meninos,
perdi-me muitas vezes pelo mar.
Ignorante da água vou buscando uma morte de luz que me consuma.


Federico García Lorca

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Existe algo mais sem sentido do que amar alguém? Amar alguém por um longo tempo, com todas as (in)conveniências que a convivência pode oferecer. Amar no sussuro, nos gritos e nos bocejos. É desacreditar numa vida sem. A ausência sendo um quase não viver, sendo uma perfuração não necessariamente no seu peito, mas nas suas tripas.

O amor, esse maldito, causa palpitações e tiques nervosos, sorrisos imbecis e coceira de raiva. Ter o outro é viver em um eterno conflito entre a as pequenas alegrias e a intranquilidade da ânsia por cometer um homicídio.

A vida pode ser mais simples.

Lembrei de esquecer

Não dá pé
Não tem pé, nem cabeça
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito
Não tem nem talvez ter feito
O que você me fez desapareça
Cresça e desapareça

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Aqui, sob esta pedra, onde o orvalho roreja,
Repousa, embalsamado em óleos vegetais,
O alvo corpo de quem, como uma ave que adeja,
Dançava descuidosa, e hoje não dança mais…

Quem não a viu é bem provável que não veja
Outro conjunto igual de partes naturais.
Os véus tinham-lhe ciúme. Outras, tinham-lhe inveja.
E ao fitá-la os varões tinham pasmos sensuais.


A morte a surpreendeu um dia que sonhava.
Ao pôr do sol, desceu entre sombras fiéis
À terra, sobre a qual tão de leve pesava…

Eram as suas mãos mais lindas sem anéis…
Tinha os olhos azuis… Era loura e dançava…
Seu destino foi curto e bom… — Não a choreis.





Inscrição - Manuel Bandeira

domingo, 9 de dezembro de 2012

Para não esquecer

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela, 
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela. 
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala, 
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança. 
Amar é pensar. 
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela. 
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela. 
Tenho uma grande distração animada. 
Quando desejo encontrá-la 
Quase que prefiro não a encontrar, 
Para não ter que a deixar depois. 
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. 
Quero só Pensar nela. 
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar. 
Alberto Caeiro 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

"Na verdade estamos todos igualmente perdidos no labirinto espelhado dos nossos desejos..."

domingo, 18 de novembro de 2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Agora o cenário mudou. Estamos no bar sentados um de frente ao outro, silenciados pela tristeza e todas as canções de amor foram feitas para nós dois.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

12/04/11

Hoje foi um dia sem final. Ninguém dormiu e acordou no outro dia:
dormimos, acordamos e ainda era o mesmo dia.

domingo, 8 de abril de 2012

O meu olhar é nítido como um girassol

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Alberto Caeiro

domingo, 29 de janeiro de 2012

LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

(Cecília Meireles)

domingo, 16 de outubro de 2011

O vermelho sempre incomodou Wilma...


Curta-metragem produzido para o projeto Olhares sobre Lilith: http://olharesobrelilith.wordpress.com/

Nos Festivais:
- Festival de Cascavel (PR)
- XVI Festival Nacional 5 Minutos (BA) - 01 a 05/11
- Festival Aruanda (PB) - 09 a 14/12

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Hoje, não.

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Adiamento - Fernando Pessoa

quinta-feira, 9 de junho de 2011

mais um sobre a morte (ou, a não-morte)

Morrer, pra mim, não é uma especialidade - na realidade não é de nenhum ser humano, ao menos não no sentido literal -, muito menos deixar que morra. Minha habilidade sempre esteve em permanecer, não importando as condições, os incômodos ou desgaste. Fui construindo, desse modo, um balaio de permanências capengas: dei privilégios aos restos em detrimento da consistência.
Hoje, repleta de restos, fico procurando quais as peças que faltam do quebra-cabeça... Se ao menos esses pedaços formassem algo eu poderia mantê-los comigo, por segurança. Espalhei os pedaços, montei. Desmontei. Montei novamente. Nada. Nada além de uma formação amorfa e desencaixada. A permanência era minha; os restos, dos outros.

- Minha querida, permanências não são renascimentos, são apenas ossadas.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

aleatório e pontual

Existe justiça na morte? Uma razão tangível para alguém deixar de existir? Ou será que a morte, essa persona non grata, age de modo aleatório, escolhendo seu novo inquilino ao acaso? Será que ela traça planos e monta armadilhas em lugares específicos para o primeiro desavisado que passar...? Isso faria valer o dito popular "no lugar errado, na hora errada". Então quantas armadilhas ela deve ter deixado pelo caminho hoje? Cairei em alguma durante o dia?
Pensar na morte é boiar sozinho em um oceano de incertezas, sem saber qual a melhor opção: definir um sentido e nadar cegamente em direção a ele ou apenas se deixar levar pela correnteza. Talvez, com um pouco de sorte, ela tenha piedade e coloque novamente os seus pés na terra. Talvez não. Como fazer brotar piedade na morte? Não sei. Da indesejada das gentes só sei que em um dia banal ela entra na sua casa sem a menor cerimônia (talvez bem na hora do almoço), se aproxima e adormece seu corpo com um beijo suave, deixando a sua cara ir de encontro com o prato de feijão recém servido.

A morte simplesmente é. Um é sem humanidade alguma.
Humanos, meus caros, somos nós - humanos e ingênuos por esperar humanidade do inumano.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Hoje Belazarte nos contou:

"Depois, amor... É inútil os pernósticos estarem inventando coisas atrapalhadas pra encherem o amor de trezentas auroras-boreais ou caem no domínio da amizade, que também pode existir entre bigode e seios, ou então principiam sutilizando os gestos físicos do amor, caem na bandalheira. Observando, feito eu, amor de sem-educação, a gente percebe mesmo que nele não tem metafísica: uma escolha proveniente do sentimento que a babosa recebe dum corpo estranho, e em seguida furrum-fum-fum. A força do amor é que ele pode ser ao mesmo tempo amizade. Mas tudo que existe de bonito nele, não vem dele não, vem da amizade grudada nele. Amor quando enxerga defeito no objeto amado, cega: 'Não faz mal!' Mas o amigo sente: 'Eu perdôo você.' Isso é que é sublime no amigo, essa repartição contínua de si mesmo, se repartindo num casal de espíritoss amantes que vão, feito passarinhos de vôo baixo, pairando rente ao chão sem tocar nele..."

Trecho do conto "Túmulo, Túmulo, Túmulo", do livro "Os Contos de Belazarte", Mário de Andrade